O timbu melhora o soro antiofídico!


O timbu é capaz de suportar até 80 picadas de cascavel ou cobra coral verdadeira. Graças a este marsupial, o antídoto contra picadas de cobra venenosas tem ficado mais eficiente, por favor, não os mate!

Há coisas que só a evolução faz para você. Por décadas os cientistas tiveram de quebrar a cabeça para criar antídotos contra o veneno das cobras. Agora, descobriram que uma solução potencialmente melhor foi “desenvolvida” ao longo de milhões de anos pelos gambás sul-americanos, que se alimentam de serpentes.

Pesquisadores da Fiocruz – Fundação Oswaldo Cruz identificaram duas moléculas no sangue dos gambás que têm essa função antiofídica e esperam utilizá-las não apenas para auxiliar quem sofre acidentes com cobras, mas também para tratar doenças humanas, como câncer e osteoartrite. “Em testes in vitro, elas foram eficientes contra o câncer de mama, por exemplo”, afirma Jonas Perales, do Laboratório de Toxinologia, que coordena os estudos.

Perales, que é venezuelano, conta que a primeira pista sobre as substâncias antiofídicas veio da sabedoria popular de seu país. “Na zona rural da Venezuela, as pessoas diziam que o gambá era resistente às picadas, mas não se sabia como”, diz. Conforme as pesquisas progrediram, a equipe descobriu que a resistência não se estende só ao gambá propriamente dito, mas também às cuícas e outros parentes do animal, todos caçadores de cobras, que teriam tido vantagens em desenvolver tais defesas bioquímicas.

Ao vasculhar o sangue dos animais em busca das moléculas responsáveis pela resistência, Perales e seus colegas chegaram a duas substâncias, conhecidas como DM43 e DM64. São glicoproteínas (grosso modo, proteínas unidas a uma forma de açúcar) e, curiosamente, têm estrutura química parecida com a de substâncias do sistema de defesa do organismo, embora elas mesmas não sejam anticorpos. Não é impossível que o organismos dos gambás e afins tenha modificado substâncias já existentes para lidar com o desafio do veneno.

Seja como for, a DM43 e a DM64 parecem especificamente talhadas para neutralizar os principais efeitos do veneno das serpentes da família das viperídeas, entre as quais se incluem as jararacas. As jararacas e afins são responsáveis por 90% dos 20 mil acidentes anuais com cobras no Brasil. “As substâncias são capazes de agir tanto contra o veneno de cobras sul-americanas quanto o de algumas asiáticas”, diz Perales. A primeira molécula contra-ataca a ação das metaloproteases, compostos do veneno que causam forte hemorragia na vítima, enquanto a outra barra as substâncias que matam as células musculares de quem é picado.

“Cremos que elas seriam mais eficientes que os soros atuais para inibir tanto a atividade hemorrágica quanto a miotóxica (que afeta os músculos)”, diz Perales. Para Ida Sano Martins, que estuda a fisiologia de venenos no Instituto Butantan, em São Paulo, a estratégia poderia vencer algumas limitações dos soros antiofídicos atuais. “Mas o problema maior é o dano causado localmente logo depois da picada. Não adianta muito tentar neutralizá-lo depois que o tecido já foi alterado”, diz.

Perales e seus colegas também estão investigando a ação das substâncias contra doenças como o câncer. Motivo: algumas das mesmas moléculas do veneno de serpente parecem estar envolvidas nas doenças humanas. Segundo o pesquisador, a equipe inclusive pediu patentes sobre algumas dessas aplicações, mas, enquanto o pedido não for aprovado, Perales prefere não revelar exatamente do que se trata. (Reinaldo José Lopes/ Folha Online)

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